quarta, 18 de outubro de 2017
Início » Opinião » Considerações acerca de tempo, superluas e eclipses

Considerações acerca de tempo, superluas e eclipses

O cenário atual mostra um começo dessa desumanização. Vemos crianças, adolescentes e jovens andando pelas ruas ou em pontos da cidade como verdadeiros zumbis.

Gravatar
11/10/2015 às 08h27

José Henrique Teixeira

Quando você atinge uma certa idade, prognósticos e mesmo fatos que tem data certa para acontecer no futuro, queira ou não, acabam te levando a pensar no único e inevitável de todos os destinos dos seres vivos: a morte. Isso me veio a mente exatamente num domingo, dia 27 de setembro  de 2015, data quando ocorreram simultaneamente a superlua e o eclipse lunar. Aqui, choveu, o ceú ficou a maior parte do tempo fechado pelas nuvens e não deu para ver eclipse algum. Meu filho mais velho saiu com máquina fotográfica com zoom potente, com tripé, mas voltou na madrugada e sem nada.

A exaustão, a mídia, televisiva e digital, sem contar a falada e a impressa, tratou do assunto do eclipse e da superlua.  O que me intrigou e inspirou essas linhas foi que todas as vezes em que o fenômeno foi mencionado, vinha a complementação da informação dizendo que a próxima vez que ele acontecerá será daqui a 18 anos ou, em 2.033.

Eu não vi desta vez, porque o tempo fechado não permitiu. E certamente não verei a próxima, porque não estarei mais por aqui. A não ser que o Poder Superior me conceda longevos 80 anos debaixo deste céu. Considero bem pouco provável essa possibilidade pelos estragos que fiz ao meu corpo nos longos 35 anos de alcoolismo e 42 anos de tabagismo, danos estes que devem ter contribuido decisivamente para o infarto que me acometeu em meados de 2014. Vale dizer que as duas dependências químicas ficaram para trás há alguns anos.

E não são apenas a superlua e a eclipse, que só voltarão daqui a 18 anos, que levam as pessoas que já dobraram a faixa dos 60 a refletir sobre o seu tempo,  nestes tempos de tantos avanços tecnológicos.  O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fala na primeira viagem tripulada por humanos a Marte em meados dos anos 30 deste século.  Pela mesma lógica acima, não poderei testemunhar.

Tem coisas e fatos bem mais simples que nos rodeiam que provocam indagações sobre a vivência dos mesmos. Uma simples Copa do Mundo, por exemplo. Quando aconteceu a primeira no Brasil, eu ainda não estava aqui. Veio a segunda, 64 anos depois, e demos aquele vexame homérico. Terceira no Brasil,  para mim nem pensar!  Mas estarei aqui na próxima, em 2018, que será na Rússia?  Na Copa de 2.022, no Qatar, a primeira em país árabe?

E os avanços tecnológicos? Hoje estamos ligados ao mundo num simples aparelhinho que carregamos no bolso. Tudo é instantâneo, em tempo real. Vai longe aquele tempo da minha juventude em que Renato e seus Blues Caps gravavam versões de músicas dos Beatles e a gente achava que eram do grupo brasileiro, porque as originais  inglesas ainda não haviam  chegado por aqui. Quando chegavam, muitos se surpreendiam:  Olha ai, os Beatles gravaram músicas  do Renato!  Pelo menos era assim numa pequena cidade do interior, onde as coisas demoravam ainda mais para chegar.

Como estará essa tecnologia em 2030?  Computadores e celulares hoje tornam-se obsoletos a cada seis meses.  Chips e mais chips são criados e capazes de desempenhar inúmeras funções. Carros obedecem comandos de voz e tem até o que não precisa da perícia do motorista – que penou na baliza para  obter a Carteira de Habilitação -  para estacionar numa vaga.  Como tudo isso estará daqui a duas décadas, quando, pelo exposto acima, não deverei mais estar fazendo parte deste plano?

Mas ao mesmo tempo eu me pergunto:  Será que vai ser bom? O humano estará se ocupando cada vez menos porque os chips estarão fazendo por ele. Mas isso não estará desumanizando os humanos?  O cenário atual mostra um começo dessa desumanização.  Vemos crianças, adolescentes e jovens andando pelas ruas ou em pontos da cidade como verdadeiros zumbis. Estão todos de cabeça baixa e usando apenas o dedão para viajar pelos seus sonhos com uma maquininha chamada smartphone. Eles não conversam mais entre si quando estão reunidos num mesmo ambiente. Cada qual está “falando” pelo aparelho com um terceiro que não marca presença ali.

Lá atrás, quando ouvíamos as nossas músicas preferidas, em discos de vinil,  numa vitrolinha chamada “Sonata”, cuja tampa era o alto-falante,  esse visionário aqui dizia que um dia seria inventado um aparelho onde, além de ouvir,  também veríamos os nossos ídolos cantando. Fomos muito além disso.

E até onde iremos?  Eu não sei. Porque não deve chegar a próxima superlua e eclipse total que já terei  apeado desse cavalo. Mas, aconteça o que acontecer, eu só queria que os homens não perdessem a humanidade. Que o amor continuasse sendo o grande sentimento capaz de tudo. Que apesar de todas as tecnologias e de toda a automação que o futuro será capaz de oferecer, que as pessoas ainda pudessem olhar com ternura para o sorriso de uma criança,  pudessem se encantar com uma flor,  pudessem, sobretudo,  se amar uns aos outros. Serão esses humanos do futuro capazes de ficar arrepiados ao ouvir uma linda canção?

Mais sobre: Artigo Teixeira

Nenhum comentário(Deixe o seu)

Deixar Comentário

Digite as letras e/ou números que você vê na imagem abaixo:

Leia | Política de Comentários.

Versão Móvel | Contato | Anuncie

Primeiro site de notícias de Jaú.
Jornalista responsável: José Henrique Teixeira MTb 20.061
Jaunews © 1999 - 2017. Todos os direitos reservados